Em tempos de grande demanda por conteúdos nacionais, em parte para atender a cota da lei do audiovisual e em parte para levar programas mais aderentes à cultura brasileira, o que vemos, é uma grande quantidade de conteúdos que morrem na praia na hora da comercialização, ou seja, na hora do licenciamento do programa para exibição em um canal de TV. O objetivo desse artigo é apontar alguns cuidados a serem tomados por quem deseja dirigir ou produzir um audiovisual com potencial de ser adquirido por emissoras do mundo todo. Minha intenção não é trazer pontos já amplamente abordados em várias literaturas sobre técnicas de produção ou direção audiovisual, e sim focar alguns detalhes técnicos que podem inviabilizar os planos de monetização de um audiovisual para TV.

Primeiramente… o tal Direito de Imagem.

Esse é o ponto mais básico e abordado tecnicamente quando alguém vai falar sobre produção, mas não por isso, ainda é um ponto que devemos ter extrema atenção porque os erros são comuns.

Normalmente as TV’s fazem uma análise do conteúdo a ser adquirido, sobretudo, focando no interesse de sua audiência e usando para isso métricas de pesquisas quantitativas e qualitativas em busca de padrões e tendências. Além disso, não podemos desconsiderar o tal “risco de dar ruim” como diriam alguns. Aqui temos, sob análise, o impacto da narrativa audiovisual junto ao publico do canal e os problemas jurídicos que possam advim da exibição. Assim, quando produzimos uma narrativa composta com cenas externas, onde esse controle de pessoas que possam aparecer na imagem fica mais crítico, devemos redobrar a atenção!

Ligue o Alerta Vermelho!!

O possível reconhecimento de alguém ou alguma marca não autorizada na cena pode ser uma bomba pronta para explodir. Um dos fatores medidos pelos analistas nesse caso é se essa bomba tem um risco alto ou baixo de fazer estrago, seja ele jurídico ou principalmente, hoje em dia, nas redes de relacionamento da marca que devem ser acompanhadas com lupa, afim de antecipar possíveis crises. Se esse risco for considerado alto pela emissora, a probabilidade é a sua proposta ir para o fundo de uma sub-sub-pasta corrompida em algum diretório virtual esquecido em algum arquivo morto até sua sumária exclusão! E convenhamos, que triste fim…

Assim, em cenas externas, olhos de lince! Coloque alguém da equipe atento às possíveis pessoas e figuras que possam ser captadas indevidamente e de fácil reconhecimento na tela. Nesse caso, solicite à devida autorização de imagem por escrito e anexe aos documentos da produção. Em caso de negativa da cessão de imagem, podemos, regravar quando for possível ou até desfocar o rosto ou objeto na pós-produção, mas essa é a pior solução estética na minha opinião. Outro caminho é simplesmente escolher pontos de corte na edição que minimizem ou encerrem esse problema. Aí é torcer para ter um ponto de corte que elimine o plano indesejado. Tchau problema! Dica, na dúvida, corte!

CODEC?! WTF? RUN MXF

Agora vou para outro tópico técnico bem importante! Como finalizar meu conteúdo para ele ter vida longa!! Nessa maratona de formatos de arquivos digitais você precisa tomar certos cuidados, para não ter o risco de voltar algumas casas no tabuleiro e parar novamente na ilha de edição afim de finalizar um novo arquivo porque o seu “pequeno atleta imagético” que estava pontuando tão bem para ser adquirido, poderá ser desclassificado dessa Liga Televisiva.

Um conteúdo para ser exibido na TV precisa estar codificado em um formato capaz de ser enviado e recebido com qualidade, a isso chamamos de codec de vídeo. Minha intenção nessa dica é trazer um formato dinâmico que possibilitará a comercialização do seu audiovisual de maneira “limpa” e funcional. Esse codec é o MXF, capaz de encapsular o audiovisual com uma compressão razoável, mantendo os canais de áudio separados em pistas. Tudo em um único arquivo. Assim, temos ali dentro a informação da imagem e várias informações de áudio separadas em pistas de áudio, mixadas e individuais. Isso possibilita por exemplo, a opção da escolha do idioma pelo telespectador em sua casa. E para as emissoras, torna possível uma dublagem limpa do conteúdo, sem voice over que é quando ficamos ouvindo o idioma original em segundo plano. O que eu particularmente acho bem chato de assistir!

Cada PISTA na sua, mas com uma extensão em comum.

Vamos lá! Existem algumas normas no mercado, a mais aceita separa o áudio em 16 pistas organizadas entre Áudio Mix Original, Áudio Mix Dublado, Áudio Voz, Áudio Trilha Sonora, Áudio Efeitos Sonoros e também algumas pistas vazias. Assim, tenha em mente e já planeje desde o início a sua sequência, organizando as pistas de áudio e as de vídeos separando inclusive os grafismos de imagem em uma pista exclusiva. Isso economiza tempo e facilita a vida! Ponto de atenção!! Não podemos nos esquecer de finalizar a Base Limpa composta por imagens limpas dos planos que contenham grafismos, legendas e textos no conteúdo finalizado. Muitas vezes é mais fácil exportar todo conteúdo em um outro arquivo limpo se você for organizado no projeto. Essa base limpa também facilita o trabalho promocional do conteúdo e é muito bem visto pelos canais de TV’s. E pode ter certeza, a equipe de promoção do canal vai amar você por isso!! 🙂 Mas sobre isso falarei em outro artigo porque é um outro universo de ações. Se tiver mais dúvidas sobre formatos, comenta aqui no artigo.

Do Brasil para o Mundo! Aponta e vai!

Por último, mas não menos importante temos que nos atentar a regulação do setor onde pretendemos licenciar nosso conteúdo e quais são as exigências a serem cumpridas na emissão dos licenciamentos. Nesse artigo foco no Brasil, onde os registros de obras audiovisuais são solicitados na Ancine e as TV’s são obrigadas a enviar mensalmente um relatório completo de tudo que foi exibido, segundo a segundo, incluindo todos os programas e intervalos. Cada conteúdo exibido precisa ter um número de Certificado de Registro de Título ou CRT que deve estar válido junto à Ancine. O não cumprimento dessa norma coloca o canal exibidor sujeito à multas e sanções descritas na lei. E isso é muito sério! O sistema funciona por análise de dados e, uma coisa é certa, sabe aquele errinho de digitação que ninguém viu… não passará! E ainda pode implicar em rejeição do relatório, o que é a mesma coisa de não ter sido enviado, pois o sistema não aceita até a correção do relatório. Acredite em mim, ninguém quer uma rejeição em um relatório com mais de 14.000 linhas!

O passaporte brasileiro do Audiovisual!

Para emitir um CRT é necessário que a produtora seja registrada na Ancine e anexe os contratos relativos à produção e direção da obra . Existe um passo-a-passo no site da Ancine. O pedido gera uma GRU (Guia de Recolhimento da União) com um valor da CONDECINE (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional) que é calculada de acordo com o meio de difusão da obra. Após a confirmação do pagamento é gerado o número do CRT autorizando a exibição. Ufa!! Corre pro abraço!

SEM CRT VÁLIDO é melhor pensar no cine pipoca com a galera, taca-lhe pendrive com seu conteúdo no aparelho de TV e Viva o Cineclube! O que diga-se de passagem é muito bom de fazer com amigos. Mas se for para veicular em um canal de TV brasileiro que é o foco desse artigo… humm..vai garrar!

Enfim, é claro que temos ainda vários pontos de atenção se nossa intenção é a de produzir algo com potencial de licenciamento, mas uma coisa é certa!

Temos um mundo de possibilidades narrativas para conteúdos seriados e solos.

No Brasil ainda temos poucas produções com perfis genuinamente nacionais, muitas são formatos abrasileirados de um produto campeão de vendas. Nessa competição destacaria as produtoras europeias e norte-americanas que nadam de braçada há tempos, isso em parte porque pensam suas produções para licenciamento em vários países. Assim é possível licenciar a um custo mais baixo e ainda sim ter excelentes lucros finais. Mas para que esse plano dê certo, tenha sempre em mente que o planejamento, assim como as técnicas corretas e a criação artística devem andar unidas. Think It, Plan It, Do It!

E que venham cada vez mais produções nacionais!!!

E você por aí?! Já passou algum perrengue na hora de licenciar seu conteúdo?? Tem dúvidas ou dicas pra dividir com os amigos? Então! Bora cambiar conhecimento!

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Fala comigo! :)